IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras


O Varredor da Rua


Poesia


Ilka Maia


PLANTA DA PEDRA


* * * * * * * * * * *


A cidade dorme... Venta frio e garoa...


Somente um homem está acordado e flutua,


Feito um fantasma... Somente um homem povoa


A rua !...




Parece um fantasma, no lusco-fusco,


Devagarinho


Deslizando e se inclinando... É uma silhueta


Tristonha, um vulto sozinho,


Catando lixo na sarjeta...




O varredor da rua, solitário e taciturno,


De vassoura e pá, durante o sono


Dos outros, é um símbolo de humildade...


Mas, enquanto procede o trabalho noturno,


É o único cidadão, na rua ! É o dono


Da cidade !




De toda gente


É ele que tem a tarefa mais ingrata,


Certamente !


Um deles me dissera, uma vez, muito triste,


Que, catar lixo é o serviço mais feio que existe !


E o varredor é como o lixo que ele próprio cata !...




No entanto, que nobre é fazer a limpeza


Da cidade ! Varrer o lixo que a tornaria


Uma cidade suja ! Com certeza


Que o varredor é um cidadão valioso,


Necessário, digno de respeito e simpatia !


A cidade precisa dele, no labor penoso !




Varredor da rua,


Levanta


A cabeça ! Varrendo a calçada,


Canta !


E seja, na paz, essa vassoura tua,


O mesmo que uma espada


Na guerra,


Enquanto à noite, andas varrendo a rua !...