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Rei Bandeirante
Poesia
Ilka Maia
A GRANDE JORNADA
* * * * * * * * * *
Nos olhos
tristonhos da minha saudade
Esfuma-se o vulto da grande cidade !
São Paulo gigante, talhado em recortes na bruma,
São Paulo se esfuma
Nos olhos molhados da minha saudade !...
São Paulo está lá, arrogante
Indomável !
Tem olhos de brasa, severo perfil !
E, a fronte nas nuvens, é o Rei Bandeirante
De pé no planalto, diante
Deste imenso Brasil !
E São Paulo está lá... embrulhado
No branco nevoeiro
Das minhas lembranças... Foi ele o meu primeiro
Namorado...
Ensinou-me a poesia da garoa
Que é toda cheia de graça
Espirrando estrelinhas na vidraça !...
Eu era uma menina que cismava à toa...
Ficava espiando a vida
Dos bondes, das carroças, naquela Avenida
Do velho Brás...
Conheci o tílburi, as fanfarras, a varanda,
E o realejo e o coreto e a banda,
E o romanesco lampião de gás !
Vi os imigrantes por todos os caminhos !
Italianos alegres fazendo carreto
E mascates morenos de olhares mesquinhos !
Vi o coche dourado e preto,
Com seus cavalos de penacho e toda a sua
Majestade, como se nem tristeza fora...
Eu era uma menina cismadora
Espiando a rua !...
E amando a rua,
Andei por aí,
Levando nos olhos
Todas as cousas lindas que vi !
Andei, andei, e enquanto
Eu andava, São Paulo crescia ! E cresceu tanto,
E tanto foi crescendo em minha frente,
Que eu não pude para ! E andando envelheci
Como se fosse de repente,
Trazendo nos olhos
Todas as cousas lindas que vi !
E veio vindo tanta e tanta gente,
Que hoje São Paulo sobe aos céus, rasga o seio
Da terra, e avança, e arrasta a massa urbana,
E transborda ! E parte
Para alem, em desvairado anseio,
A procurar por toda parte,
A verdadeira gente Paulistana !...
--- Paulistano ! Que o céu esteja nebuloso,
Não importa. São fabricas produzindo !
É o progresso furioso
Rugindo
Na doida carreira que não pode parar !
São os pecados da cidade grande !
--- Paulistano ! Olha que lindo
O gigante Paulista se esfuma
Talhado em recortes na bruma,
Banhado em matizes de luar !
Isto é São Paulo ! O milagre de pedra e de asfalto
Que o homem das caravelas
Rezou, um dia, no Planalto !
--- Paulistano ! Olha as multidões fervendo,
Escorrendo
Pelos viadutos e passarelas !...
E olha que belas
Se curvam, que belas
Se inclinam as passarelas !...
Isto é Piratininga das garoas frias...
O grito de D. Pedro ! O sonho de Fernão Dias !
Cresceu, indomável, como nenhuma
Cidade no mundo, cresceu jamais !
E, a fronte nas nuvens, São Paulo arrogante
É o Rei Bandeirante
Com suas glorias tradicionais !