IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

Dedicatória

Poesia

Ilka Maia

ALVORADAS - São Paulo, junho de 1.923

* * * * * * * * * *

Abre este livro que escrevi chorando...
Muitos reflexos de teus dias idos,
Refletindo no mar que andei sulcando,
Ficaram nos meus versos refletidos!

Abre este livro... E quando a tarde triste
Deixar no vale um eco de saudade...
Essa sombra do bem que não existe...
Esse fantasma da felicidade; --

Quando as ondas do oceano, soluçantes,
Morrerem sobre a praia silenciosa,
Num sudário de espumas alvejantes...
Sobre um leito de conchas cor de rosa; --

Quando se desenhar no azul sombrio
Do horizonte a tarde desmaiada,
A vaga silhueta de um navio...
A sombra de uma nuvem desgarrada; --

Quando o sino da tarde, muito ao longe,
Rezar, contrito, sobre o firmamento...
Muito contrito, como um negro monge,
Sob o teto sinistro do convento; --

Quando o céu todo se cobrir de rosa,
Aos beijos matinais do sol nascente...
Quando a lua surgir, branca e saudosa,
Trazendo a noite, silenciosamente; --

Oh ! Lembra-te de mim ! Ouve estes cantos
Que rimei muitas vezes soluçando !
Não desprezes os frutos de meus prantos...
Beija este livro que escrevi chorando...

II
Volve os olhos, então, para o passado...
Esse mal que foi toda a minha vida!...
Que levou meu porvir despedaçado
Nos soluços plangentes da partida !

Foi ali que nasceram minha dores...
Foi ali que viveu minha alegria !
Ah ! Colhe agora as pétalas das flores
Que desfolhaste ao despontar do dia !

Pensa nos prantos que deixei dispersos
Pelos caminhos em que fui passando !...
Colhe as pétalas murchas destes versos...
Guarda este livro que escrevi chorando...

III
Sim ! Guarda estes sonetos mal rimados,
Cheios do fel de minha desventura !
Que estes versos, com lágrimas regados,
Nascidos de soluços de amargura,

São filhos dos martírios dolorosos
Que me trouxeste na manhã da vida...
São reflexos de sonhos luminosos
Que embalaram minh'alma dolorida !

São lamentos de angustias redivivas...
São gotas do meu cálice de fel !
São feridas que deixo ainda vivas,
Estampadas no alvor deste papel !...

São palavras contidas que eu não disse !
São olhares mortais que não volvi !
São suplícios que eu quis que ninguém visse !
São ciúmes de passagens que não vi !...

São as gotas de sangue ainda quente,
Das chagas que com lágrimas lavei !...
Das ulceras que deixo eternamente,
Latejando nas rimas que rimei !...

Ah ! Quisera trazer-te nestes cantos,
Um turbilhão de rimas florescidas !...
Estender à teus pés, lúcidos mantos,
Estrelados de estrofes coloridas !...

Mas não pude ! Em meu peito solitário,
Não florescem as rosas da alegria !
Que posso eu dar-te em meio do calvário,
Senão, meus longos prantos de agonia ?...

IV
Aqui os trago. São teus. Leva-os contigo !
Mas, com os olhos em lágrimas imersos,
Vai um dia dizer ao meu jazigo,
Que nunca te esqueceste de meus versos !...

Como a herança tristíssima de sangue,
Que sobre o cadafalso, o penitente
Lega ao carrasco, no cutelo exangue,
--- Meu amor, moribundo amargamente,

Deixa a teus pés este livro atirado !...
Inclina-te, carrasco, suspirando !
Carrasco, ergue este livro do tablado...
Leva este livro que escrevi chorando...