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A Alma do Retrato
Poesia
Ilka Maia
PLANTA DA PEDRA
* * * * * * * * * * *
Certo dia roubei um teu retrato
antigo,
Como se rouba o fruto cobiçado.
Queria te-lo comigo,
Esse teu lindo rosto,
Para a fome do meu olhar enamorado !
Roubei-o ! E, com que gosto,
Fico a fitá-lo, horas inteiras,
Na minha solidão, nesta saudade !
És tu... E não és tu... Ias para as trincheiras,
Soldado Paulista do chão da Cidade
És tu e não és tu... Há um sorriso em esboço,
Ou o esboço de um beijo abstrato,
Suspenso nos teus lábios ?...
Um menino moço !...
Que expressão tão meiga !...
O olhar era mais puro...
Vê-se a alma, no rosto do retrato !...
Naquele tempo... Tu não sabias teu destino...
Eu juro
Que o moço do retrato era um menino
Simples, romântico e tristonho...
Um cismador sonhando um grande sonho...
Naquele tempo não sabias, não sabias
Artifícios impostos, ironias
Amargas, ferimentos
De fazer chorar ! Não sabias
O sorriso sarcástico, isso tudo
Que vem dos nossos próprios sentimentos !
Naquele tempo, eu vejo uma ternura de veludo
Nos grandes olhos ! Não havia receios
E inquietudes... Nem anseios
Torturados... Foi a vida, foi o egoísmo
Da sorte ! Eu sei ! O olhar de agora,
Parece
Água negra de abismo !...
Agora...
O teu cabelo embranquece...
Que desejo absurdo me assalta e me devora,
De tirar o boné do retrato, de repente,
E descobrir-te a fronte, para ver, luzindo,
O teu cabelo preto de antigamente !...
És tu... Não és tu... Sempre lindo,
O rosto de hoje é mais lindo, por certo...
Mas este moço era tão meigo, era tão doce !...
Ficou rígido, austero ! Se ainda fosse
O mesmo, talvez me desse um coração aberto...
No rosto de papel, devagarinho,
Posso passar a ponta dos meus dedos
Repletos de carinho !...
"Parece que sou eu..." disseste, quando
O retrato te mostrei. Depois... Que segredos
Havia no silencio comovido ?...
"Vem do túmulo..." Ficaste olhando
Como quem se vê de longe: "Se eu tivesse morrido..."
Miro a fotografia. Uma lágrima insiste...
Em verdade, este moço morreu... Com que desgosto
Me ponho a lamentar o seu destino ingrato !...
Morreu... E às vezes, cada vez mais triste,
Vem refletir-se no teu lindo rosto,
Feito a alma penada do retrato !...