| IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras |
| Boneca de Trapo |
| Poesia |
| Ilka Maia |
| AREIA NA ALMA |
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| Eu sou como aquela boneca de trapo |
| Que, quando criança, todos nós tivemos, |
| Boneca de cara suja que rola pelo chão... |
| Não quebra, nem é como as outras bonecas |
| Que custam dinheiro ! É de trapo |
| De algodão. |
| Feita por mãos de uma velha criada |
| Ou de uma avózinha |
| Que contava historias. Tem boca de linha, |
| Tem olhos de contas, não tem nariz. |
| Pode rodar, pendurada |
| Por uma perna ! pode |
| Tudo sofrer, a boneca infeliz ! |
| Não precisa carinhos nem cuidados. |
| Pode estar esquecida |
| Em qualquer canto, caída |
| Na cozinha ou no quintal !... |
| Si chove em cima dela, amanhã seca |
| No sol... Não faz mal ! |
| Nada faz mal à boneca de trapo ! |
| É feia mesmo, não se estraga e não descora. |
| Não é como as outras, de louça, não chora, |
| É sempre do mesmo jeito ! |
| Trapo mesquinho de nenhuma cor... |
| Pode-se até espetar-lhe alfinetes, |
| No rosto e no peito ! |
| --- Boneca de trapo não sente dor... |
| Tem toda a expressão de uma santa paciência ! |
| E por qualquer motivo, em momentos de raiva, |
| Arremessa-se a triste boneca no ar ! |
| Cai longe, de braços abertos... Tem a aparência |
| De quem espera que se lhe vá pisar !... |
| Você me maltrata, |
| Me trata |
| Como à boneca de trapo e de algodão ! |
| --- Você se esquece, menino grande, |
| Que sou de carne e osso ! |
| E tenho alma ! e tenho coração ! |