| IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras |
| As Pedras |
| Poesia |
| Ilka Maia |
| ALVORADAS - São Paulo, 18 e 20 de junho de 1.923 - Á D. Maria Lacerda de Moura. |
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| Quem diz que a pedra muda, á beira de uma estrada, |
| É pedra morta e fria, é pedra indiferente ?... |
| Quem diz que ela não sente os beijos da alvorada ?... |
| Quem diz que a pedra é morta e que a pedra não sente ?... |
| Quem diz que a pedra é um bloco estúpido de nada ? |
| Quem diz isso não pensa -- e quem diz isso mente ! |
| A pedra, a pedra muda á beira de uma estrada |
| É um mistério do céu ! Talvez um penitente !... |
| E é por isso que quando, as lágrimas das chuvas, |
| Rolam cheias de dor, dos olhos das estrelas, |
| Choram as pedras, sós, como velhas viúvas... |
| E é por isso que quando, ás vezes, distraído, |
| Voltas, mudo, pastor, ao passar junto delas |
| Parece-te escutar, ás vezes um gemido... |
| II |
| As pedras são sinais de dolorosas vidas !... |
| São restos imortais de vidas acabadas ! |
| São almas sem abrigo -- As almas foragidas |
| Que Deus deixou sem lar no gelo das calçadas !... |
| São crianças sem pão, famintas, atiradas... |
| Aos turbilhões da rua, em trapos envolvidas !... |
| São os cegos sem luz de pupilas cansadas |
| Que procuram a paz das campas esquecidas !... |
| São mudos a que a mão de ferro do destino, |
| Estrangulou o som nas portas da garganta!... |
| -- E as mais tristes, mais sós, desprezadas de Deus, |
| Que não servem sequer de encosto ao peregrino, |
| Essas são corações que numa angustia santa |
| Amaram como o meu, uns olhos como os teus !... |