IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

As Pedras

Poesia

Ilka Maia

ALVORADAS - São Paulo, 18 e 20 de junho de 1.923 - Á D. Maria Lacerda de Moura.

* * * * * * * * * * *

Quem diz que a pedra muda, á beira de uma estrada,

É pedra morta e fria, é pedra indiferente ?...

Quem diz que ela não sente os beijos da alvorada ?...

Quem diz que a pedra é morta e que a pedra não sente ?...



Quem diz que a pedra é um bloco estúpido de nada ?

Quem diz isso não pensa -- e quem diz isso mente !

A pedra, a pedra muda á beira de uma estrada

É um mistério do céu ! Talvez um penitente !...



E é por isso que quando, as lágrimas das chuvas,

Rolam cheias de dor, dos olhos das estrelas,

Choram as pedras, sós, como velhas viúvas...



E é por isso que quando, ás vezes, distraído,

Voltas, mudo, pastor, ao passar junto delas

Parece-te escutar, ás vezes um gemido...

II

As pedras são sinais de dolorosas vidas !...

São restos imortais de vidas acabadas !

São almas sem abrigo -- As almas foragidas

Que Deus deixou sem lar no gelo das calçadas !...



São crianças sem pão, famintas, atiradas...

Aos turbilhões da rua, em trapos envolvidas !...

São os cegos sem luz de pupilas cansadas

Que procuram a paz das campas esquecidas !...



São mudos a que a mão de ferro do destino,

Estrangulou o som nas portas da garganta!...

-- E as mais tristes, mais sós, desprezadas de Deus,



Que não servem sequer de encosto ao peregrino,

Essas são corações que numa angustia santa

Amaram como o meu, uns olhos como os teus !...