| IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras |
| Arrependimento |
| Poesia |
| Ilka Maia |
| AREIA NA ALMA |
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| O passado me dói no coração, amargo ardente, |
| Por tudo quanto |
| Fiz de bom, por todo o bem que desgraçadamente |
| Eu te queria ! |
| É por isso, é por isso que o passado me dói tanto ! |
| Não me posso esquecer dos maternais cuidados |
| Com que eu pagava a tua ingratidão de cada dia ! |
| Daquela solicitude, daquele desprendimento |
| Cheio de carinhos delicados, |
| Que esbanjei contigo, de momento em momento ! |
| Era rica de sacrifícios infinitos ! |
| De bondades sutís e divinas grandezas ! |
| Dei-te tudo o que uma mulher tem de mais caro, |
| Sem visar recompensa -- olhos em pranto, fitos |
| Nos teus olhos, mãos vazias presas |
| Às tuas mãos ! E nem punha reparo |
| Em que o tempo rolava |
| Destruindo a minha vida |
| E me rendias numa pobre escrava !... |
| Perdoei, perdoei, louca e perdida, |
| Tudo o que de perfídias e torturas |
| Me fizeste ! Perdoei, de mãos postas ! |
| E ao fim de tantas desventuras, |
| Hoje me cravas um punhal nas costas !... |
| Eu cambaleio quase morta, |
| Caio desfeita em sangue, meu traidor tirano ! |
| Tudo está feito. Nada mais importa . |
| Todavia, eu me arrependo de ter sido boa |
| E ter, dentro do peito, um coração humano |
| Que sabe perdoar como só Deus perdoa ! |
| O passado me dói, nesta hora |
| Amarga de delírio e de tormento ! |
| Os meus olhos se turvam, na agonia infinda... |
| Mas bem sei, bem sei que mesmo agora, |
| A despeito de todo este arrependimento, |
| -- Eu sou capaz de perdoar-te ainda ! |