IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

Amar

Poesia

Ilka Maia

ALVORADAS - São Paulo, 17 de abril de 1.923 - Ao Dr. Pedro Vicente de Azevedo e Da. Miloca.

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Amar !... Fazer do brejo um páramo florido !

Por estrelas azuis num céu de tempestade!

Dar cânticos em flor a um coração partido !

Dar prantos de alegria aos olhos da saudade !...



Amar !... Dizer na vida o que jamais se disse...

Viver sonhando e rindo em meio da amargura !

Pôr sorrisos de luz nos lábios da velhice !

Dar festas perenais á triste sepultura !



Amar ! Viver morrendo em rápidos momentos,

Suspenso num olhar !... Suspenso num sorriso !...

Vendo a vida suspensa em simples movimentos!...

Estar num grande inferno ! Estar num paraíso !...



Levar o mundo encerrado em nossas mãos vazias...

E caminhando sempre em rútilos enganos,

Ver brotar nova luz e novas alegrias,

De novas decepções, de novos desenganos !...



Ó vós que amais assim e que passais sonhando

Mansas tardes azuis de um luminoso estio...

Ó Vós que amais assim e que sonhais pensando

Diante do fulgor de meu olhar vazio !...



Piedade ! Eu vos contemplo ! Olhai para os olhos meus

E vede a grande dor de meu olhar deserto...

Piedade ! Eu tenho n'alma um grande mar de escolhos,

Eu tenho o coração de ulceras coberto !...



Ó Vós que podeis rir ! Ó Vós que sois felizes !...

Piedade para mim que vos vendo radiantes

Sinto dentro em meu peito as velhas cicatrizes

Se abrirem novamente em chagas gotejantes...



Piedade para mim que em pranto vos invejo,

E tal como um mendigo estendo a mão... Imploro !

Oh ! Vede, mocidade ! Eu vos contemplo, eu vejo !

Eu rogo, eu sinto, eu gemo, eu rio, eu tremo, eu choro !



Passai, sorri, cantai... Mas longe destes prantos...

Respeitai os grilhões do escuro cativeiro...

Deixai que no meu peito os mortos desencantos

Durmam sem despertar no sono derradeiro !...



Por Deus ! Não perturbeis a placidez da morte

Com os rútilos clarões e os sorrisos da vida !...

Não queirais que eu maldiga os desígnios da sorte !...

Não ergais, não ergais a lápide caída !...


Piedade para mim !... E quando eu for velhinha,

E disser a este mundo o derradeiro adeus,

Chorando de alegria, esquálida e branquinha

No céu os bem-direi sorrindo para Deus !...