| IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras |
| Alma Livre |
| Poesia |
| Ilka Maia |
| PLANTA DA PEDRA |
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| Sendo infeliz, sou livre, na infelicidade ! |
| Alma liberta, sem grilhões nos pulsos, |
| Tenho o direito de liberdade ! |
| Grito meu sentimento, |
| Sou dona dos meus impulsos ! |
| E sei que há, neste mundo de fingimento, |
| Felicidades obrigadas ! |
| Gente que leva mãos cheias |
| De ventura, |
| Pesadas |
| De cadeias !... |
| Sei que há vidas |
| Felizes, mediadas |
| A custo, |
| Ajustadas com jeito |
| Pelo que foi aceito |
| Ou que parece justo ! |
| Sei que há bocas calando, à força de mordaças, |
| A verdade sentida que é preciso esconder ! |
| Sei que o silencio imposto desabafa ameaças |
| Em suspiros que escapam das mordaças, |
| Exprimindo o que a boca não deve dizer !... |
| Sei que de instante a instante, |
| A censura condena e encarcera e oprime |
| O pensamento ! E, num instante, |
| Um homem se transforma num farsante, |
| Porque desejo é crime ! |
| Sei que é mister gritar sem motivo, |
| Quando a alma sufoca e se revolta ! |
| E, se um descuido solta |
| Recalques prisioneiros, há um gesto repressivo, |
| Um sarcasmo covarde, um sorriso evasivo... |
| Sei que as pálpebras tombam, trêmulas, medrosas, |
| Se um olhar perturba. Sei que, em defesa |
| De conceitos e normas sentenciosas, |
| No coração, como se esmagam rosas, |
| Destroem-se tesouros de Beleza ! |
| Eu, não ! Sou quem sou, nesta minha desgraça, |
| Sem artifícios, nem algemas, nem mordaça ! |
| Ninguém me vigia, nada me desgosta, |
| No que sinto, no que fiz ! |
| Antes a dor liberta, que ventura imposta ! |
| Sendo infeliz, sou livre na desgraça ! |
| Não tenho a obrigação de ser feliz ! |