IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

Alma Fazendeira

Poesia

Ilka Maia

A GRANDE JORNADA

* * * * * * * * * *

Amo a cidade
Onde passei minha existência.
Mas às vezes há no meu ser uma estranha
Necessidade
Uma exigência
De fugir para o seio da montanha !

É o chamado vibrante do passado
Ardendo no meu sangue ! É a alma dessa herança
Que me vem desde longe, daquele lado
De picos altaneiros
Onde a Mantiqueira espia o Paraíba,
É a lembrança
Que me deram meus avós fazendeiros !

Deixem-me sentir, de quando em quando,
Os bambuais de pluma verde farfalhando...
E as cachoeiras rugindo em saltos de loucura,
Espumando de branco e sádico furor !
E os barrancos floridos de capim gordura...
Esse milagre de cores cheirosas no sol e no vento
Que é maravilha e encantamento
De catingueiro em flor !...

Deixem-me subir a pé e ir subindo
E subindo os caminhos de pedra e de barro
Irisados com pó dourado de malacacheta !
A porteira está perto ! Deixem-me ir subindo
Já vejo bois de carro
E a vaca branca e a vaca preta !
Deixem que eu atravesse o ribeirão pisando n'agua !...
Subindo
Mais um pouco, já se avista
A fazenda velha cercada
De morros, caiada...
E se avista a cocheira, o curral ! Quando a gente
Chegar naquela curva, ( isso é cousa prevista,
Infalível ) o jumento vai urrar nossa chegada,
Desesperadamente !

Deixem-me escutar, à noite, do terreiro,
A massa coral da saparia...
Sapo-Boi, sapo-ferreiro,
Fazendo o cantochão e a melodia !
Deixem que eu fique olhando as lanternas errantes
Dos vaga-lumes em baixo, e lá em cima, pelas
Abertas das ramadas murmurantes,
Todo aquele estendal infinito de estrelas !...

Manhãzinha, depois do leite, enquanto
O tropeiro ainda esteja ao recanto
Do celeiro, arreando os burros de cangalha,
Deixem-me sair para os morros afora,
De culote e também de chapéu de palha,
Que eu vou me embora
Ver, dos penhascos,
O imenso panorama que se estende
Além, e se desdobra até Rezende !...

Deixem-me assim ! Vocês, gente rígida e fria
Que vivem sufocados de cidade em cidade,
Vocês me fazem dó, porque eu sei, com tristeza,
Que tem uma alma áspera e vazia...
E não são capazes de sentir esta felicidade
Plena de beleza !
E nunca, em sua vida, ouviram saparia
Na fazenda... E seja como for,
Não entendem bambuais na beira d'agua,
Floradas de capim balançando ao vento...
A maravilha, o encantamento
De um catingueiro em flor !...