IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

Adeus de Joelhos

Poesia

Ilka Maia

AREIA NA ALMA

* * * * * * * * * * *

Deixo-te, minha cruz, a meio do caminho.

Tu que foste a negra companheira

Dos meus dias sem luz...

Digo-te adeus, muito baixinho...

Deixo-te aí, que já não posso de canseira,

Minha divina, minha linda cruz !



Desde menina te enxerguei gravada

No fundo

Da minha alma ! Amei-te a sombra !

E tudo o que sonhei e pensei neste mundo,

Foi, nos teus braços, morrer crucificada !



Desceste do infinito céu, lírica e linda

E pousaste em meus ombros... Caminhei !

Muitas vezes exausta, te levei de rastros...

Rolei contigo, levantei-me ainda !

De pranto e sangue, toda te manchei !



Hoje, deixo-te, deixo-te caída

No chão com teus braços abertos

Que ainda me chamam na despedida !

Covarde, irei. Arrastarei meus passos,

Não sei para que intérminos desertos...

Irei. Bem dita sejas,

Pelos poemas de dor que encontrei nos teus braços !...



Adeus. Eu fracassei. Julguei-me feita

Centelha de divindade !...

Vejo-me, agora, muito imperfeita,

Humildemente humana, desejando paz,

Esbarrei em mim mesma, na vaidade

E no egoísmo ! Amei-te, mas de ti não fui capaz !



Foi longa e triste a caminhada. Havia

Um vergastar constante

Que me magoava e me feria

A carne ! E risadas de mofa !

E dentro de mim, a fé, tremendo, agonizante...



Beijo-te os pés ! Dou-te este sangue ardente

Que do meu coração goteja ! E este pranto,

Todo este pranto que jorra versos a flux !

Deixo-te, sim. Vou, tristemente

Por aí, sozinha ! Adeus ! Adeus no entanto !

Adeus de joelhos, minha linda cruz !...