| IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras |
| A Voz da Natureza |
| Poesia |
| Ilka Maia |
| PLANTA DA PEDRA |
| * * * * * * * * * * * |
| Se o cadáver falasse, |
| Que ouviria o doutor, na câmara de morte ?... |
| Talvez que a Voz da natureza lhe gritasse |
| Isto : |
| "É tarde agora. Nem te importe |
| O que, em tempo, esqueceste. Não existe receita |
| Que a vida restitua. Esta vida desfeita, |
| Foi vida em tuas mãos. Mandaste um corpo à terra, |
| Nada mais. Uma vida se finda, |
| Um cadáver se enterra. |
| Tens algo estranho ! Por que o fitas ainda , |
| Absorto ? ... |
| Está rijo, está frio, está morto ! |
| Vê, entre as pálpebras cerradas, |
| Que olhos vazios... Sem olhar... Duas gotas |
| De gelatina, |
| Como duas opalas apagadas... |
| Dentro deles gelaram todas as remotas |
| Visões, no fundo da retina... |
| Tu os viste brilhar, |
| Esses olhos de gelatina sem olhar... |
| A terra come a gente, meu Doutor ! Não se lesa |
| Impunemente, a Natureza ! |
| Drogas, em doses, |
| Não calarão, jamais, os direitos do Instinto ! |
| Recalques saltarão do abismo das Neuroses, |
| Destruindo a existência ! |
| Cada célula é alguém, no imenso labirinto |
| Dos mistérios ! Sofismas e Ciência |
| Não preenchem lacunas do Destino ! |
| Nem só se mata fazendo sangue ! |
| Num momento se conta mais um assassino |
| E mais um corpo exangue |
| Para o verme ! Vaidade e hipocrisia |
| É o que andam semeando esqueletos na lama ! |
| Tua sabedoria |
| Tem que curvar-se aí onde a alma reclama |
| Com mil bocas de Dor ! " |
| Se o cadáver falasse, que diria o Doutor ?... |