IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

A Voz da Natureza

Poesia

Ilka Maia

PLANTA DA PEDRA

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Se o cadáver falasse,

Que ouviria o doutor, na câmara de morte ?...

Talvez que a Voz da natureza lhe gritasse

Isto :

"É tarde agora. Nem te importe

O que, em tempo, esqueceste. Não existe receita

Que a vida restitua. Esta vida desfeita,

Foi vida em tuas mãos. Mandaste um corpo à terra,

Nada mais. Uma vida se finda,

Um cadáver se enterra.

Tens algo estranho ! Por que o fitas ainda ,

Absorto ? ...

Está rijo, está frio, está morto !

Vê, entre as pálpebras cerradas,

Que olhos vazios... Sem olhar... Duas gotas

De gelatina,

Como duas opalas apagadas...

Dentro deles gelaram todas as remotas

Visões, no fundo da retina...

Tu os viste brilhar,

Esses olhos de gelatina sem olhar...

A terra come a gente, meu Doutor ! Não se lesa

Impunemente, a Natureza !

Drogas, em doses,

Não calarão, jamais, os direitos do Instinto !

Recalques saltarão do abismo das Neuroses,

Destruindo a existência !

Cada célula é alguém, no imenso labirinto

Dos mistérios ! Sofismas e Ciência

Não preenchem lacunas do Destino !

Nem só se mata fazendo sangue !

Num momento se conta mais um assassino

E mais um corpo exangue

Para o verme ! Vaidade e hipocrisia

É o que andam semeando esqueletos na lama !

Tua sabedoria

Tem que curvar-se aí onde a alma reclama

Com mil bocas de Dor ! "

Se o cadáver falasse, que diria o Doutor ?...