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A Queimada
Poesia
Ilka Maia
AREIA NA ALMA
* * * * * * * * * *
Eis-me de pé, no topo da
colina,
Vendo, lá em baixo, arder, a infinita queimada !
Botei fogo na minha vida ! Quero ver.
Daqui do alto da colina,
A minha vida torturada ,
Loucamente arder !
Foi ali que eu vivi a mais linda loucura
Do meu sonho...
Foi ali que eu amei o meu maior amor !
Havia uma casinha na moldura
De um jardim todo vermelho de rosas
Dolorosas,
Perpetuamente em flor !...
Era o meu lar, era o meu grande mundo !
Eras tu e o que tu eras,
Com teu sorriso a resplender em primaveras !
Hoje eu peguei uma tocha ! De tudo eu fiz
Uma fogueira !
Uma desgrenhada e trágica fogueira,
Porque, de sangue frio, assim o quis !
Saí de casa, muito pálida e tranqüila,
A tocha acesa na mão !
Fui deitando fogo em cada canto...
Deixei queimando aquilo que amei tanto !...
E segui, muito pálida e tranqüila,
Compondo uma tristíssima canção !
Eis-me de pé no alto da colina.
E a toda a cena assisto. Que fogueira louca,
Que fogueira linda eu fiz da minha vida !...
Estalam beijos no ar!
Beijos ardentes da tua boca !
E abraços doidos de despedida,
Se retorcem nas chamas,
Numa ânsia desesperada de abraçar !
Tua imagem querida me aparece
E resplandece
A todo instante,
No lívido esplendor do imenso fogaréu
A fumaça
Te enlaça
E vai subindo, em rolos para o céu !
Há gemidos e gritos abafados,
Da insensata esperança
Que não cansa
E que não quer morrer !
Lá se vai,
O meu ultimo canteiro de saudades...
A casa rúi... O teto cai...
Em breve, nada mais há de restar lá em baixo !
Lá onde havia uma casinha
E um jardim, perpetuamente em flor !
Ruínas e cinza !...
Nada mais, daquela vida minha !
Nada mais, daquele grande amor !...