IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

A Paixão da Garoa

Poesia

Ilka Maia

PLANTA DA PEDRA

* * * * * * * * * * *

São Paulo, minha cidade !

Por que me expulsas ? Por que me enjeitas ?

Tudo me negas ! Na verdade,

Não tens mais nada para mim ! Estão desfeitas

Todas as derradeiras esperanças... Tu me enjeitas !

E eu, longe de ti, morrerei de saudade...



Amei-te tanto ! Eras o mundo ! A Pátria ! A casa !

Quando sofria,

Saía

Pela rua, molhando a fronte em brasa

Na garoa fria !



Saía ! Embriagava o coração e a vista

Na grandeza tua !

Minha alma se erguia ao teu prédio mais alto,

Gloriosa de ser Paulista !

Somente Paulista, no meio da rua !

Paulista do chão de pedra ! Do chão de asfalto !



Devo dizer-te adeus, todavia... E, estranha em toda parte,

Cumprir meu fado errante !

Só de pensar que vou deixar-te,

Sinto-me foragida, expatriada, expulsa !

Já me parece que estas distante...

E, dentro desta dor, toda a cidade pulsa !



Sempre sonhei morrer no planalto nativo,

Como planta agarrada ao punhado

De terra... Sonho fugitivo !...

Talvez nem volte, nunca mais, do exílio...

Mas, se nada alcancei, nem me foi dado

Honrar-te o que mereces, pelo menos tive um filho

Paulista ! Dei-te um soldado !



Devo dizer-te adeus... Terras de cada canto,

Em que lugar do mundo hei de esconder meu pranto ?



Deixa que eu fuja, estrangeiro !

Quem conhece,

Pelo mundo inteiro,

O lugar de onde a alma se atordoa ?...

Onde fica o lugar onde se esquece

A cidade Paulista na garoa ?...