IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

A Mascara

Poesia

Ilka Maia

AREIA NA ALMA

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Eis-me de volta. Arranco a mascara

Que usei lá fora o dia

Todo. Atiro-a sobre a poeira

Do tocador silencioso e paciente

Onde moram tantas cousas em desordem !...

E agora, em frente

Ao espelho, miro minha cara verdadeira

Que se parece tanto

Com a cara triste da minha vida !...

Fundos olhos que dizem quanto

Chorei ! Mágoas caladas

Guardadas

Na cesura da boca umedecida...

Vincos das faces pálidas

Que contam míseras histórias

De sacrifícios cruéis, lutas inglórias

Recolhidas à sombra das olheiras cheias

De pequeninas rugas que começam

A surgir onde secaram lágrimas...

E na fronte, hó ! Sim ! Naquela fronte lisa

Há qualquer coisa que resplende, plena

De fidalga beleza e grandeza serena...

Eis-me sem mascara, ali sozinha,

Mirando aquela cara que é bem minha !

E ela, a mascara, a cara de mentira

Que anda comigo por aí, vedando

Aos olhares alheios, a verdade -- mira,

Mira de cima do toucador, risonha e cínica,

Toda nudez desta miséria, dando

Risada ! Uma risada

Desmesurada,

De boca,

Aberta, uma risada

Fingida e ôca,

Meio sarcástica, meio louca,

Que fica imóvel, no silencio poeirento

Do meu tocador... Máscara ! Fingimento

Do infeliz ! Máscara mentirosa

Que brilha e engana !

E que, piedosa,

Esconde e cobre a desgraça humana !...

Quem, neste mundo onde tudo se mascára,

Quem não precisa dessa falsa cara ? ...