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A Historia de Uma Rosa
Poesia
Ilka Maia
A GRANDE JORNADA
* * * * * * * * * *
Daqui a muitos anos, junto
da lareira
Que será toda enfeitada de rosas,
Decerto uma velhinha há de contar
À maneira
Das velhas histórias,
Uma história breve, porém... Singular !
Os netinhos e as rosas gostarão de ouvi-la,
Porque a velhinha, pálida e tranqüila,
Terá uma voz que sonha, que pensa
Muito longe, enquanto vai contando...
Porque em seus olhos andará boiando
Uma tristeza imensa !...
Gostarão de ouvi-la, as rosas, mais ainda
Porque essa é justamente a história de uma rosa...
E junto da lareira, bem sei
Que ela começará dizendo : "Tinha que ser linda !
Era vermelha ! Eu já contei...
E havia uma escrava
Que amava
O seu rei !
O rei era belo, moreno,
Tinha olhos grandes e negros, de encanto !"
... Um pequeno silencio, um suspiro na sala...
E as rosas notarão cheias de espanto,
Que no rosto sereno
Da avózinha,
Uma lágrima trêmula resvala...
"O rei era moreno...
Tinha...
Ia dizendo: um dia, a escrava enamorada
Colheu uma rosa encarnada,
Deixou-a junto ao trono do cruel senhor.
O rei chegou, logo de entrada
Ficou furioso quando viu a flor !
E castigou a escrava, sem piedade..."
--- Só por causa da rosa ?...
( uma das crianças há de
Perguntar, surpresa, certamente.
E a outra, de repente: )
--- Que rei esquisito !
Como podia ser tão mau, se era tão bonito ?...
A avó nem saberá dizer a resposta !
Muito branca, muito quieta junto a lareira,
O olhar perdido no chão:
"Assim foi... De flor... Nem toda gente gosta...
Fiquem calados ! Então,
Parece por castigo ! No outro dia
E todo dia e muitos dias, a rosa amanhecia
Tão vermelha e fresca no seu vaso,
Tal e qual apanhada no momento !
Com certeza não era por acaso !...
Nunca se viu rosa durar tanto num vaso !...
Ninguém sabe o que foi que passou no pensamento
Do rei ! O rei andava estranho...
A cara mais sombria deste mundo !
E afinal,
Cabisbaixo, iracundo,
Envenenado de rancor tamanho,
Afinal,
Ao primeiro lacaio mandou que destruísse
A flor que lhe fazia tanto mal !..."
Novo silencio, um suspiro na sala
E pétalas tombando da lareira...
"Não ousou tocá-la... Não ousou tocá-la..."
Será como um sussurro, um farfalhar da brisa
Na roseira...
Nem se saberá se a velhinha é quem fala,
Ou teriam falado as rosas da lareira...
Vendo que a avó se queda imóvel, pensativa,
Talvez pergunte o mais novo dos netos,
Porque pôde uma rosa perturbar um rei ...
E a velhinha, escondendo uma lágrima esquiva:
"O coração tem recantos secretos...
O rei guardou segredo para sempre !...
Eu não sei !... Eu não sei..."