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A Cidade
Poesia
Ilka Maia
AREIA NA ALMA
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Bendita a cidade
Viva e enervante
Que não deixa a tristeza tomar conta
Da gente ! Bendita a cidade
Que engana a saudade
De quem está sempre muito distante!
Bendita a cidade
Que aponta
Ali perto,
Naquele letreiro que acende e apaga,
Azul e vermelho, escrevendo coisas
No lusco-fusco incerto
Da tarde vaga...
Si a alma se afunda
Na mágoa profunda
De anseios calados, curtidos a sós,
Bendita a cidade que as mágoas espanta
P'ra fora de nós !
Si há negras feridas de falsidade
Sangrando em meu peito,
Eu vou à cidade,
Me afogo no meio da multidão.
Sigo depressa, sigo direito,
Distraio meus olhos quase felizes !
-- Feridas de há pouco, já são cicatrizes
Dormindo, em silencio, no meu coração !
Bendita a cidade
Que engana e que embala,
Tonteia e adormece
Os nervos daquele que sofre e não fala !
Bendita a cidade
Onde tudo se esquece !
Não há desespero nem dor que se esconda
Na célere onda
Febril, da cidade.
Nenhuma tristeza, por grande que seja,
Nenhuma resiste,
Nenhuma sobeja,
Na vida do triste
Que vai à cidade !
Eu sigo
Contente,
No meio da gente
Que segue comigo,
Que ondeia e atordoa...
Eu sigo,
Rimando versos, à toa !
Pensando, no entanto,
Porque sofri tanto
E quase chorei por causa de alguém,
Si a rua é tão bela, si a rua é tão boa,
Que a gente duvida
Si nesta vida
Alguém vale a pena de se querer bem !
Bendita a cidade !
Eu volto, liberta de dores vivazes,
De dores mortais !
Deixei-as voando lá na cidade,
Nas grandes vitrinas, nos grandes cartazes !
-- Seu nome, você, desgosto, saudade...
No meu coração não há nada mais !...