IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

A Balança

Poesia

Ilka Maia

AREIA NA ALMA

* * * * * * * * * *

Há, no lugar da tua alma ausente,
Uma balança de metal barato.
Num prato há uma moeda reluzente...
Eu estou no outro prato.

Sorris quando me vês ! E a balança
Balança...
A moeda reluz. O sorriso se apaga !
Aparece
Em teus olhos, uma angústia vaga...
Sobe o prato... O outro prato desce.

Pesa a moeda, que à tua vista,
Se multiplica
Por milhões de vezes, em milhões !
E começa, em teu cérebro, ardente e imprevista,
A dança pomposa, deslumbrante e rica
De uma infinidade de tostões !

Tostões ! Tostões dourados
Indefinidamente
Multiplicados !
Dinheiro em turbilhões ! Dinheiro em bruto !
Dinheiro onipotente
E absoluto
Que compra mundos aos punhados !

Tostão que tine noutro tostão ! Tinido
Doido
No ouvido avarento
Preso ao tormento
Do triste tinido !

Eu fico lá em cima, sentada
No prato da feia balança...
Visão apagada,
Mirando de cima, a trágica dança
Dos áureos milhões...
Bem sei, meu judeu, que um dia, si entendes,
Contente me vendes
Por cinco tostões !

E, os olhos turvados de mágoa imensa,
Lastimo o teu erro de níquel... Sou quase
Alma ! E me sinto mais leve que gaze,
Suspensa
No prato cruel da balança grosseira...
Já nem te percebes da minha presença,
No vão desespero da tua cegueira !...

Mas, si por acaso, uma lágrima santa
Cai dos meus olhos, sobre o teu rosto,
Teu olhar se ilumina e se levanta !
Desce o meu prato. Sorris, satisfeito
De me ver ! Dinheiro fica posto
De parte... Negas, confuso, o teu triste defeito...

Assim nos balançamos, lado a lado,
Eu e a moeda de metal gelado,
Onde uma alma faltou e onde balança
Uma balança
De pesar milhões !
São dois pratos pendentes de metal barato !
Sobe e desce... Pesa a moeda... Nessa hora,
Eu quase salto do meu prato
E caio fora,
Numa tonteira atropelada de tostões !...