IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

Destino de Cigarra

Poesia

Ilka Maia

PLANTA DA PEDRA

* * * * * * * * * *

Que bem me importa esta vida traidora
Onde vagueio de mãos vazias !
Eu sempre fui igual às cigarras vadias !
Uma pobre boêmia trovadora...
E existe uma riqueza de emoções bizarras
No destino de ser como as cigarras !...

Se o coração me dói, a vida continua !
Enquanto estou chorando, nascem flores lá fora !
O céu azul me chama para a rua,
De qualquer cousa a alma da gente se enamora !

Ora !
~E eu posso viver a beleza daquilo que tantos
Nem sentem, nem vêem, nem sabem que existe !
O meu ser é um cristal vibrátil irisado,
Que reflete o universo repleto de encantos !
Os efeitos de sol naquela torre, tu não viste
Talvez, companheiro do acaso que vais a meu lado...

Nem ouves, decerto,
O sonoro compasso
Que há no teu passo
Cantando aqui perto,
No meio de um coro de passos de gente que passa
E que passa !...
Nem ouves teu passo no passo da massa !...

Eu, sim ! Bem percebo a cidade andando...
E o meu passo miúdo, na pedra cantando...
A cidade caminha de botas gigantes !...
O meu passo vai indo e vai indo, de contrabando,
Por entre as passadas dos pés bandeirantes !...

Os pés bandeirantes da minha cidade,
Arrasta que arrasta, se perdem na rua...
Eu ando miúdo... Sou eu de verdade,
Tão livre, tão solta no meio da rua,
Como a cigarra sem moradia
Que não se importa de ser vadia !

Ninguém me espera ! Não tenho hora !
E o meu olhar cigano,
Erradio, leviano,
De qualquer cousa, no caminho, se enamora !

Debruça no viaduto e fica rindo
Enamorado,
Porque lá em baixo, de um vermelho muito lindo,
Umas folhagens, cá e lá, tão bem luzindo,
Parecem fogueirinhas acesas no gramado !...

Assim, E depois... Dentro do meu olhar que é louco
E fugitivo,
Há milagres emocionais do pensamento !...
Esse rosto que eu amo e que vejo tão pouco,
Dentro do meu olhar posso ve-lo tão vivo,
Como se o visse nesse momento !

Está ali, na calçada... Não como um retrato
Desenhado num cartão, mas como um rosto
Real, de carne quente, perfeito, exato !
... A pele morena, as linhas firmes, um gosto
Esquisito
De ameixas em calda, nos olhos escuros,
Brunidos de negro, brilhando no rosto bonito !

Nem frutos maduros
Teriam as cores da pele trigueira !
Está ali, na calçada e me fala
E me fita e sorri à maneira
Que é somente sua !
E se cala
E fica severo e tristonho...
Mas vai comigo, de rua em rua,
Como a alucinação de um delicioso sonho !...

Assim, na calçada... Tão bem posso ve-lo,
Que sinto o cheiro do seu cabelo !
E então, que me importa porque vagueio
De mãos vazias ?
Meu coração transborda, cheio
De milagres !
Vou indo, esbanjando meus dias,
Vou indo, boêmia, como as cigarras vadias !...