IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras


O Jornaleiro


Poesia


Ilka Maia


PLANTA DA PEDRA


* * * * * * * * * * *


Você não me interessa


Mais. Não me ofereça


Nada do que tem aí. Afinal,


A notícia que eu quero


E há tanto tempo espero,


Não virá, nunca, para o seu jornal !...




Eu já estava esquecida


De que havia esperado toda a vida,


Para ler essa cousa que ninguém escreveu...


Os anos foram passando,


As folhas dos jornais, amarelando...


Minha esperança envelheceu...




Alem disso, você, antigamente,


Era uma figura muito diferente !


Um garoto esforçado, de boa-fé.


Mal apontava o dia,


Gritava no estribo do bonde, corria


Toda a cidade, a pé !




Que foi feito desse garoto do passado ?


Agora, você tem uma banca e, sentado,


Aguarda o seu freguês !


Também, no seu jornal, falta literatura,


Sobra política, propaganda e, essa leitura


Não é do meu gosto, me desagrada de uma vez !




Ao menino de outrora, eu teria dito,


Num pequeno poema que não fica escrito,


Algo de ternura e de calor.


Mas a minha alma não entende


Esse jornal que você vende


Quase por favor !




Para o meu coração, um verdadeiro


Jornaleiro


Há de gritar e há de correr


Pelas praças, pelas ruas, alegrando a cidade


Com seu gesto de esforço e de boa vontade !




"A Gazeta ! O Correio ! Quem vai ler ? "


A cidade perdeu esse trato expressivo


Da sua tradição. O garoto festivo


Da imprensa, que não existe mais !...


Para ser franca,


Você me perdoe, jornaleiro da banca,


Venda a outro freguês, os seus jornais...