IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras


Cidade da Garoa


Poesia


Ilka Maia


PLANTA DA PEDRA


* * * * * * * * * * *


Minha alma esta como as ruas da cidade


Paulista quando cai garoa...


Pelas suas calçadas,


De tristeza molhadas,


Caminha, à toa,


A grande multidão que minha alma povoa...




Dúvidas vão ali, murmurando sozinhas...


São velhinhas


De fichu na cabeça,


Que ficarão caducas de desgosto !...




Orgulhosos caprichos de véu no rosto,


Passeiam, nos vultos


De fidalgas damas, disfarçando


Pensamentos ocultos...




E tomando-lhe a frente,


Heroísmos calados de fronte erguida,


Seguem, feito os soldados que voltaram


Das batalhas da vida,


Cegos, gloriosamente,


Gloriosamente mancos !




Vagam crenças puras como virgens,


Esfarrapadas esperanças


Correm, tremendo, sobre a pedra fria,


Nos pézinhos descalços das crianças...


Sonhos de arranha-céus que construí, na alegria


De viver, na gloria de ser tua,


Erguem-se na garoa, em cada canto


Da rua...


Mas moram dentro deles, sombras de saudade,


Pálidas e belas,


Que se debruçam nas janelas,


Para olhar a cidade !...




Quando a tarde declina,


A cidade acende as cores dos seus cartazes..,


E se derramam na garoa fina,


Tintas que lembram lágrimas vermelhas...


Olhos de olheiras lilases...




E em cada um dos bonitos


Cartazes,


Pode-se ler um trecho dos meus poemas,


Com letras de luz escritos !




É a hora da Ave-Maria. E então, na garoa,


A cidade

Põe-se a tanger os sinos de todas as igrejas !...


E ressoa e ressoa


Soluçando o teu nome num clamor tão grande,


Que hás de ouvi-lo, por certo, aonde quer que estejas !...