IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras


A Capela dos Enforcados


Poesia


Ilka Maia


PLANTA DA PEDRA


* * * * * * * * * * *


Quando se passa em frente da capela,


Vê-se a parede enegrecida !


É fumaça de vela...




Há fileiras de velas brancas derretendo...


Bagos de cera quente derretida...




A parede é negra de súplicas ! Foi enegrecendo...


As súplicas ficam marcadas


Apenas na parede, com fumaça de vela !...




Deus não está, decerto, na capela !...




Moram lá dentro, esculturas geladas,


Guardadas


Em nichos... É argila !




O homem transforma


A argila bruta e fria, em figuras de santo,


Pelo desejo humano de pedir ! E à argila


Santificada, imprime a sua própria forma !




Para a eterna fraqueza, fez o amplo manto


De proteção lendária ! A dor, tenta iludi-la


Rasgando chagas redentoras


Nos símbolos de mártires ! Braços abertos


De perdão, inventou-os de medo,


Por suas culpas destruidoras !




Quer o Pai, que o ampare, em seus passos incertos,


Menino grande, homem pequeno ! E desde cedo,


Se a gente passa


Em frente da capela,


Vê fileiras votivas de vela,


Ardendo em súplicas negras de fumaça...




Deus estará talvez, numa longínqua estrela !...




E a fumaça das súplicas não chega aonde


Deus se esconde !...




As súplicas ficam estampadas em fumaça de vela,


Na parede negra da capela...