IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras


Um Busto na Praça


Poesia


Ilka Maia


PLANTA DA PEDRA


* * * * * * * * * * *


Quem me dera ter sido alguém que merecesse


Ter um busto singelo, numa praça !


Numa praça Paulista, quem me dera


Estar quieta, esculpida na massa


Da pedra, rodeada de flores na primavera,


Ouvindo o eterno canto que a cidade entoa,


Cismando em meu silencio,


A fronte descoberta na garoa !...




E assim, noite e dia,


Figura da rua,


Na rua estaria,


Debaixo do sol, em noites de lua,


Dizendo no rosto a tristeza vadia


Da alma boêmia que foi sempre sua !




Cabelos ao vento, o olhar pensativo


Seguindo quem passa,


Perdendo-se longe... Que estático anseio


Talvez expressasse, assim, sem motivo,


De dia e de noite, no meio


Da praça !




Nas praças, há gente


Que caminha


Devagar e pára na frente


Das estátuas e conta alguma historia... A minha


Se diria em poucas palavras, nua


Como a simplicidade, somente :


"Fazia versos. Nasceu em São Paulo.


Morreu em São Paulo.


Gostava da rua ".




E eu, quieta, na praça !...


Eu, vendo garoa peneirar saudade,


Como se toda a cidade


Estivera chorando


À toa...


E vento levando


Garoa


E garoa voando...


E toda a cidade boiando diante da minha vista !


E eu, quieta, parada no meio da praça Paulista !...