IMF - Inesquecíveis Músicas Fagueiras

A Abertura

Prefácio

Maria Lacerda de Moura

ALVORADAS - Livro de poesias de ILKA MAIA, publicado em 1.924 - São Paulo - Feito na

Tipografia da Parceria, Rua Augusta, 44, a 48, Lisboa, Portugal - Todos os exemplares da Primeira

Edição foram numerados e assinados pela autora. - Este, tem o n. 249 e é o último em meu

poder, no momento mas pertence a minha filha Tânia. Ilnio.

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PREFACIO ? NÃO !



Sou inimiga dos prefácios porque não concordo com a instituição dos padrinhos.

Padrinho e Madrinha constituem assim uma espécie de tutela para a vida. E o meu

temperamento combativo, rebelde, revolta-se contra toda e qualquer coação á minha

liberdade.

Na acepção literária o prefacio é o segundo batizado ou melhor: o crisma. Se o autor

é mal sucedido, se é medíocre, diz o padrinho " Ora, pediu-me o prefacio, como

negar ? Quis auxiliar a um principiante, eu sabia que não tinha talento, mas..." E

deixa no ar a afirmação da sua grande generosidade no gesto amplo da mão de

protetor.

Detesto a proteção, sob qualquer forma.

Se o autor vence, se afirma uma individualidade, -- até morrer o padrinho

compartilha dos lucros " Não fora eu... Era desconhecido... Corrigi, melhorei,

retoquei, ensinei, dei-lhe um pouco do meu grande cabedal..."

Detestável tudo isso.

Quando publiquei o meu primeiro livro o fiz sozinha, consciente, não me querendo

escravizar a tutelas, responsabilizando-me pelo meu ato.

Atirei-o amplamente, corajosamente, por todo o Brasil e, esperei, sem sequer uma

única apresentação, a não ser o meu nome desconhecido.

É o que ILKA deve fazer agora. É o que toda mulher deve fazer quando tem

consciência de si mesma, quando se promete um esforço continuado, perseverante,

em busca de uma nesga da Beleza imortal.

Não se trata de uma mulher vulgar e não devo antecipar a emoção dos leitores dessa

vigorosa poetisa ainda menina.

A mulher, para conquistar o lugar a que tem direito, o lugar que é muito seu e que foi

usurpado pela prepotência masculina aliada á submissão inconsciente, feminina;

usurpado pelo atentado ao seu desenvolvimento mental na inação da sua atividade

cerebral e no jugo do trabalho domestico ( obrigatório ) só para o sexo feminino, -- a

mulher tem de reagir, com todas as forças, contra o meio ambiente: família,

sociedade, opinião pública, preconceitos de toda espécie, e tem necessidade de vigor,

de heroísmo, de personalidade para vencer todos os entraves e, brilhar, -- (quand

même) as muralhas seculares da escravidão social, mormente para o sexo frágil que

por ser frágil é o mais sobrecarregado...

No nosso pais, a mulher verdadeiramente individual, intelectual, é uma espécie de

terceiro sexo: as mulheres desconfiam de nós, os homens tem medo da

concorrência...e, todos se associam para desviar a atenção do nosso valor,

ridicularizando-nos, envolvendo-nos de sátiras ou de galanteios, outra arma indigna

como a tática do silêncio.

A literatura do ( boudoir ) que tanto seduz a mulher, é o meio de afasta-la

docemente... E ela não entende ou prefere não entender, espreguiça-se

languidamente ás frases alambicadas dos Dom Juan -- almofadinhas da literatura -- e

se deixa ficar na inconsciência da inatividade mental, estendendo as mãos para as

mais fortes algemas...

A mulher intelectual é precursora: tem de ser ousada, tem de ser heroína, tem de

sacrificar toda a sua vida a vencer dificuldades, tropeçar em barreiras incalculáveis.



Da tutela do Pai passa para a tutela do Marido... Não se falando da sociedade que

não larga a presa.

Se tem talento de verdade -- encontra centenas de candidatos a diretores espirituais...


E a sua mente se vai alargando ao contato das experiências amarguradas e as

responsabilidades se multiplicam num crescendo assombroso, e, são tantas que as

lágrimas se misturam às glórias, numa apoteose dolorosa de Sonhos e de duelos de

vida ou de morte !...

Eis quanto te aguarda, minha ILKA.

Sê forte. Procura vencer.

Não te deixes esmagar como tantas outras. Não deixes que te sepultem a inspiração.

Não consintas que maculem a tua musa.

De todos esses montões de livros editados a cada hora--só ficam aqueles escritos

dentro da alma, aqueles iluminados na flama dos grandes e fecundos sacrifícios,

nascidos da vida interior; só conseguem penetrar os portais de outras gerações os

livros escritos com o suor do nosso coração, com as magoas da alma-- se os animou

um desejo maior, uma ânsia incontida, um anhélo de perfeição e beleza.

Tens de cultivar dentro do peito um Ideal, qualquer que ele seja.

Pois bem, minha ILKA, a Arte, como tudo, tende à uma forma inédita.

Os grandes iniciados das idéias modernas ensinam-nos que, doravante, é bem mais

ampla a missão do Artista. É preciso se eleve ele até se constituir em um canal por

onde deve jorrar a limfa bem-dita da Beleza, mas, também, é necessário se liberte de

escolas e sectarismos para a amplitude de horizontes vastos como vasto é o

lampadário de esperanças dos idealistas do século XX.

A ARTE é renovadora, é rebelde, é livre, é construtora, é, em todos os tempos, um

surto formidável na escala evolutiva.

Atravessamos uma época extraordinária de transformação social e o Artista tem de

procurar, nesse caos, o fio de Ariádne, tem de encontra-lo, que se constituiu guarda

avançada dos mistérios sagrados dos iniciados da beleza imortal, dos iniciados da

perfeição indefinida...

É mutilada a obra de Arte quando o Artista sucumbe desviando-se por encruzilhas

adrede preparadas pelos reacionários, pelos escribas da fraternidade humana, pelos

mercadores dos templos... Por isso Cristo, no gesto de os enxotar, indicou um atalho

nas obras de Arte renovadora e grande...

Queres ver, minha ILKA, um exemplo ? D'ANNUNZIO que tem o mérito de haver

procurado uma saída para o seu anseio de liberdade, de infinito. Errou. Não é nos

pequeninos FIUME que esta a solução para as tragédias da vida, nem é nessas

conquistas locais que se encerram as grandes verdades.

O campo de ação é muito mais vasto, não pode ser restringido á noção da pátria ou

da família. O Artista deve ter a intuição da Unidade porque tem de penetrar a DOR

UNIVERSAL.

A solução das grandes verdades ?

Procura-a nas injustiças humanas. Procura-a nos soluços das mães miseráveis que

perdem seus filhos devorados pelos cães policiais das fabricas... Ou estraçalhados

entre os dentes das engrenagens das maquinas.

Procura-a na ociosidade farta e na ociosidade da miséria.

Procura-a nas arcas entupidas dos ricos e nas enxergas nuas dos cortiços imundos.

Procura-a nos cárceres onde o frio gargalha retalhando as carnes de criaturas e para

onde vão crianças ficar em contato com degenerados e monstros para aprender a

torpeza e a barbaridade e a revolta inconsciente.

Procura-a na exploração do homem pelo homem, na escravidão social da mulher, no

trabalho da criança, no olhar dos garotinhos esfarrapados, viciados, cigarro á boca,

entrecortada a fumaça pelos nomes pouco edificantes.

Procura-a no anseio das almas nobres, nos surtos dos poetas a escalar o Infinito, nas

nossas aspirações transcendentais, nos sonhos dos precursores, no lirismo dos

corações enamorados do Ideal.

Mas, resolve a Dor, minha ILKA. Não há Arte sem muita Dor !

A Dor é a grande genetrix!...

Depois, veras como cresceste dentro de ti mesma.

A grande Dor é o privilégio, a compensação é a benção dos Artistas.

E, se as de ficar pelas encruzilhadas colhendo os suspiros imperceptíveis das

borboletas que rasgaram as asas num espinho de roseira, -- colhe a grande Dor,

penetra a Dor humana, canta a DOR UNIVERSAL ?

Perfura a Dor em todos os sentidos. Encontrarás a libertação.

Crescerá, sobre a tua cabeça angélica, a aureola dos iniciados...

E viverás na memória dos Artistas, dos tristes e dos oprimidos.

Não te preocupes com as glorias efêmeras, com as palmas das multidões

inconscientes.

O Artista prefere ser incompreendido isolando-se da vulgaridade...

O Artista deve ter individualidade própria, viver fora de sua época, ser estrangeiro no

seu próprio país, sonhar uma humanidade sempre maior em vista de porvir cada vez

mais vasto.

Não falo aos teus 16 anos: falo á alma da Artista, á sensibilidade feminina, á tua

precocidade assombrosa.

Perdoa-me. É o desalento ? É a dor que te venho abrir no peito em novas cicatrizes

como aquelas cantadas nos teus lindos versos ?

Não sei, minha ILKA, é a vida... É a Arte...

Vês como fizeste mal em exigir o meu prefacio ?

Já é a linguagem da Madrinha...

Deixo-te, filhinha espiritual. Segue o teu caminho, refugia-te na solidão da tua alma,

ouve as tuas vozes interiores e lembra-te de que ( só a um entrave para os nossos

vôos, -- é a impossibilidade mental de voar mais alto )

Beijo-te com o respeito com que se surpreendem as Sacerdotisas da Beleza orando

nas contas dos seus poemas...

Salve!

És mais uma grande Dor dentre as muitas dores que soluçam dentro de mim mesma...



São Paulo, 1.923

Maria Lacerda de Moura.



AS DEDICATÓRIAS



Á Memória de Meus Avós

Dr. José Maria de Freitas e Amélia Eugenia de Azevedo Maia

Á Meus Avós

Dr. Adolfo Carneiro de Almeida Maia

e

Ignez Maria de Albuquerque Freitas



Aos meus queridos Pais e minhas Irmãs

Aos meus Tios

João e Dulce - Tributo de amizade e gratidão

Aos meus Tios

Augusto e Ismenia - Como prova de amizade e reconhecimento


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